DÉBORA DENADAI EM PROSA E VERSO

FAZER POESIA É LAVAR A ALMA FAZENDO SANGRIA...

Textos


POR QUE A GENTE AMA?

"...Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo...

(Carlos Drummond de Andrade, in As sem razões do amor)

     A gente tem essa mania de ficar se perguntando porque ama alguém, pergunta esta absolutamente inútil. Ama-se por todos os motivos, e não importa se são os certos ou os errados, adequados ou inadequados. Ama –se porque não é o tipo da coisa que  te deixa escolha. Acontece porque acontece, porque é assim, porque não tem outro jeito, porque sim, com vontade ou contra ela. A gente ama simplesmente quando acontece de amar, não nos cabe decidir e nem podemos. A gente não ama quando quer, quando é conveniente, quando acha que está na hora, quando o objeto do amor preenche os requisitos (e quase nunca preenche). A gente não ama porque faz sentido, porque é o mais indicado agora ou o correto.
 
     A gente vai amando sem saber e às vezes sem perceber, e quase sempre acaba até amando coisas que acreditava não fossem dignas de amor, que antes pareciam tão simples e tão ordinárias que beiravam a insignificância . A gente ama sem notar que está amando alguma coisa que nunca nos passou pela cabeça amar mas que sem mais aquelas nos trouxe de volta à vida, nos mostrou essa coisa frágil e comovente que existe dentro da gente e que nem havíamos percebido. A gente ama porque simplesmente, sem perceber, admitir nossas fragilidades já não é o fim do mundo e ama quem nos mostrou porque soube nos mostrar isso escancarando as suas próprias fragilidades.

     E a gente só vai vendo pelos pequenos detalhes e só se dá conta depois de somar muitos deles. A escova de dentes que não é a sua e que ficou na sua casa esquecida,  o perfume que você pára na loja fingindo que vai provar só porque é o perfume do seu amor, o filme que você até gosta mas não vê muito porque chora e que termina comprando o dvd simplemente porque vocês choraram juntos vendo.E se fosse pouco, a criatura até fala o seu nome do jeito que você gosta e que ela advinhou não se sabe como. Uma mão que não se cansa de fazer carinhos e uma boca que não se cansa de te beijar. Sonhos recorrentes e simultâneos de um lado e de outro, como se fossem visitas à distância. As pequenas afinidades e compreensões com os limites de cada um, as pequenas cumplicidades que nos ajudam a decifrar o mundo.

     A gente nem vê, mas quando se dá conta está amando e amando cada dia mais. E o exercício é tão simples que a gente descobre que se o outro está, ama e se não está, ama também. Ama a presença e ama a ausência, porque é a lembrança do outro ali. E que tudo que a gente deseja é seguir amando e que ele seja feliz. A gente ama porque. Simples assim. E a vida se torna outra coisa e você se pergunta como alguém vive sem amar. E a gente se pergunta porque tanta gente precisa do outro ao alcance das mãos, quase atado a uma coleira,  se a gente pode amar simplesmente....

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Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/05/2009
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